(FOLHA de PERNAMBUCO, 27 04 2005)

 

Lula cumprimenta populares com o presidente do Senegal, Abdoulaye Wade
Nic Bothma/EFE


Lula Senegal

Lula pede “perdão” à África
Presidente se desculpou por passado de escravidão no Brasil

DACAR (Folhapress) - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu “perdão”, ontem, aos africanos pelos negros do continente que foram enviados ao Brasil em séculos passados para trabalhar em regime de escravidão. Ao falar na Ilha de Gorée (Senegal), ponto de saída dos navios negreiros para as Américas, o presidente e a comitiva se emocionaram.
         Lula discursou na chamada Casa dos Escravos, onde os negros eram pesados, presos e acorrentados antes de embarcarem aos países colonizados por Europeus. Estava ao lado do presidente Abdoulaye Wade, que agradeceu as palavras do colega brasileiro, chamando-o de “o primeiro presidente negro do Brasil.”
“Queria dizer ao presidente Wade e ao povo do Senegal e da África que não tenho nenhuma responsabilidade com o que aconteceu no século 18, no século 16 e 17. Mas penso que é uma boa política dizer ao povo do Senegal e ao povo da África: perdão pelo que fizemos aos negros.”
A fala do presidente emocionou a comitiva brasileira. Ministros, assessores e até alguns jornalistas choraram ao ouvir o pedido de perdão. Visivelmente, o mais emocionado era o ministro Gilberto Gil (Cultura), que, antes da fala de Lula, cantou uma composição sua em parceria com Capinam sobre a Ilha de Gorée. A letra, em francês, cita a pele dos negros como uma bandeira que significa o sofrimento.
         O ministro Celso Amorim (Relações Exteriores) disse que o pedido de perdão é simbólico, mas ficará registrado na história Brasil-África. “É o reconhecimento de uma dívida. Isso, com certeza, vai ficar marcado”, disse, na Ilha de Gorée, a 20 minutos de barco do centro de Dacar.
         Assim como o Papa João Paulo II fizera, Lula passou pela porta do “nunca mais”, chamada assim pela certeza dos escravos de não mais retornar ao continente quando passavam por ela para embarcar nos navios negreiros.
         “Eu sei da quantidade de autoridades que já esteve por aqui. Eu vi fotografias de muitas personalidades do mundo. Mas uma teve a humildade. Uma que morreu e que foi enterrada na última sexta-feira teve a grandeza de vir aqui naquela porta do “nunca mais’ pedir perdão.”
Após o discurso, Lula percorreu outros pontos da ilha, cercado de crianças com bandeiras do Brasil. No trajeto, comentou a emoção de ter pedido perdão aos africanos. “É como uma dor de cálculo renal. Você tem de sentir, não dá para dizer. É a pior dor do mundo. Só estando ali (Casa dos Escravos) para ter a dimensão do que todas as pessoas sentiram por 300 anos.”
E, a seguir, mais uma vez citou o Papa como inspiração de seu discurso. “Quando se comete um grave erro histórico, como no caso dos negros e dos judeus, o Papa (João Paulo II) nos ensinou que é fácil pedir perdão.”